O dilema das redes: o acaso não existe

Começo falando sobre um capítulo do livro “O Poder do Hábito”, de Charles Duhigg, em que a varejista dos Estados Unidos, Target, era abordada. Como ela conseguia saber, antes de nós mesmos, o que desejávamos? Através de pesquisas com os consumidores, dados coletados automaticamente pelos cartões de crédito, produtos comprados com frequência, ou seja, padrões que deixamos, naturalmente, ao consumir. Coletadas essas informações, elas eram sintetizadas por matemáticos e estatísticos para fornecer a Target um padrão dos clientes que entravam na loja. A partir deste padrão, eles enviavam promoções direcionadas em folhetins impressos para a casa dos clientes. Assim acontecia em 2002.

Quase 20 anos depois e algumas plataformas de mídias sociais criadas, essa coleta de dados e direcionamento do consumidor se tornou preocupante e despertou a atenção de pessoas importantes e com know-how para falar sobre o assunto: ex-executivos das próprias redes sociais. É assim que se desenha o argumento do documentário “O Dilema das Redes”, original da Netflix, do diretor Jeff Orlowski. No decorrer da narrativa, ele vai além do vício e captação de dados para vendas; mostra o quanto nossa sociedade e a própria democracia estão em perigo.

Que as redes sociais nos monitoram e os anúncios que recebemos não são por acaso, a grande maioria das pessoas já sabia, principalmente quem trabalha profissionalmente com mídias sociais. Talvez o que falta para o usuário é questionar quais os impactos desse direcionamento quando o assunto é política, ciência, realidade. Ao assistir ao documentário de 93 minutos, fica claro como estamos sendo direcionados para uma bolha onde só lemos e escutamos aquilo que nos mantêm ligados à rede, o espaço para o contraditório é deixado de lado.

O facebook, vendo a repercussão do documentário, divulgou nota de repúdio. No texto, Mark Zuckerberg tachou o doc de sensacionalista e afirmou que o tema foi tratado de forma unilateral. Sou obrigada a concordar que faltaram depoimentos de pessoas que ainda trabalham nestas empresas, para dar espaço ao outro lado se pronunciar. Mas o conteúdo do documentário não deixa de impactar e nos levar a refletir sobre nosso relacionamento com o digital.

Por que assistir O Dilema das Redes?

Para você entender de fato que existe esse dilema e se posicionar diante do assunto ou mesmo questionar o próprio uso dessas redes. Quem já precisou passar uns dias off e sentiu abstinência das redes sociais? É nesta sensação, para a qual não costumamos dar muita atenção, que mora o perigo. É justamente o motivo pelo qual devemos questionar quanto tempo estamos dedicando para as redes sociais, se os benefícios – inegáveis – das mídias sociais estão nos empurrando para a ruína.

Mercado

Divulgada amplamente na mídia, uma pesquisa feita pela Decode, empresa de análise e pesquisa em big data, apurou que os termos “Desativar / excluir Facebook” cresceram 250% no Google entre 9 e 29 de setembro. O documentário foi lançado pela plataforma de streaming Netflix exatamente no dia nove de setembro.

Esta mesma empresa, a Decode, desenvolve produtos através deste acompanhamento de dados nas mídias digitais. É um mercado amplo e rentável. Afinal, essas informações fornecem uma radiografia do consumidor e isso é um prato cheio para empresas que estão ávidas por vender, fidelizar clientes. Aí voltamos ao cerne da questão do documentário: estamos vulneráveis e a falta de critérios e até leis para este mercado são insuficientes. No momento, somos nós que devemos voltar nosso olhar crítico e blindar a mente desse direcionamento.

Se, ao assistir “O Dilema das Redes” você questionou quem segue, passou a pensar duas vezes antes de curtir, desativou ou instalou alguma ferramenta de controle de acesso às suas mídias digitais, então assistimos ao mesmo documentário.

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